É desenvolvido em Itália, nos finais do séc. VIV até meados do séc. XVI.
Em Portugal apenas é manifesto na década de 30 do séc. XVI, com Sá de Miranda na Literatura.
O Renascimento vem renovar as artes e as letras, pensamento, as ciências e o ensino.
Estas mudanças provocam transformações a nível social, político e económico na Europa. O fundamento deste movimento é o Humanismo que consiste no estudo das humanidades, gramática e retórica, baseado nos autores gregos e latinos. Expressa e salvaguarda a dignidade do Homem.
O Classicismo aparece como reflexo do renascimento nas artes e na literatura. Os autores gregos e latinos são admiradores de autores clássicos que se baseiam na perfeição e riqueza, também no engenho das suas obras e nas habilidades pessoais. No Classicismo busca-se o equilíbrio, simplicidade e elegância com origem Helénica latina.
Em Portugal, na, literatura destaca-se António Ferreira tanto na poesia como na poética.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Análise de “O guardador de rebanhos” de Alberto Caeiro
“O
guardador de rebanhos”
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Análise do Poema:
“o que nós vemos das cousas são as cousas” assim se inicia o
poema, desta forma Caeiro explica que as coisas são como as vemos e nada mais
para além disso, pois segundo a filosofia do “Mestre” querer ver para além das
coisas, raciocinando, é iludir-se.
Este poema procura ensinar o leitor a “pensar em a pensar” o
real.
Nos versos 5 e 6 “O essencial é saber ver, Saber ver sem
estar a pensar” , o poeta diz-nos que o essencial é ter consciência de
sentir (saber) sem raciocinar (pensar).
No 10º verso o poeta anti-metafórico contempla-nos com a
metáfora “…Alma vestida” em que o eu poético lamenta o peso dos nossos ensinamentos
e convicções que, tal como uma roupa vestida, protegem a nossa alma e
impossibilitam a visão das coisas tal como elas o são. Caeiro dá ênfase à
naturalidade e espontaneidade excluindo o excesso de reflexão e pensamento. A
roupa e tudo o que nos cobre os olhos e os sentidos, são imposições
culturais, filosóficas e religiosas que nos impossibilitam de ver a realidade
como ela é.
Nos três últimos versos, as estrelas e as flores são como
que uma expressão de fuga para a simplicidade da Natureza, aqui mais uma vez
está implícito a simplicidade das coisas elas são o que os olhos vêem, são
apenas elas mesmas.
O paradoxo : “uma aprendizagem de desaprender” diz respeito
à libertação do peso da metafísica em que foi tradicionalmente formado.
Trata-se de um novo processo de aprendizagem que pressupõe a libertação de
todas as convicçoes e pensamentos adquiridos. Paradoxalmente, para aprender é preciso
abandonar as formas e conteúdos pré-impostos e pré-concebidos, pensando
menos para libertar-se de tudo o que possa alterar a captação da
realidade.
Análise de "Viajar! Perder países!" de Fernando Pessoa
"Viajar! Perder países!"
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da
passagem.
O resto é só terra e céu.
Reflexão:
A noção de viagem presente no primeiro verso está
associada à ideia de procura para o sujeito poético viajar não implica ganhar
países, ganhar lugares na rota da sua vida; significa, antes, procura de si
mesmo, encontro consigo mesmo.
No entanto, o poema parte de uma ideia paradoxal de
viagem, falando-se aqui de uma viagem permanente, de partidas constantes, na
qual cada rosto de si mesmo encontrado é um lugar imediatamente perdido. Ou
seja, trata-se de uma viagem permanente procura e descoberta do ser que é sempre
outro e não tem amarras a ninguém, nem a si mesmo.
Características dos Heterónimos de Fernando Pessoa
Alberto Caeiro: Eu não penso, sinto
Características temáticas: o “Mestre” dos outros; o poeta dos sentidos – Sensacionismo
(predomínio das sensações por oposição ao pensamento; poesia do “olhar”; poesia
das sensações tais como são; interpretação do mundo a partir dos sentidos);
relação de harmonia com a natureza (integração e comunhão com a Natureza;
atenção à “eterna novidade do mundo”; deambulismo bucólico; recusa do
pensamento; aceitação do mundo, da vida, da morte; poesia do presente e
imediato; panteísmo naturalista). Mas também o paradoxo: contradição entre a
“teoria” e a “prática”
Características de linguagem e estilo: verso livre, métrica e estrofes irregulares;
pobreza lexical, linguagem simples; adjectivação objectiva; frases simples e
predomínio do presente do indicativo (e uso do infinito ou do gerúndio);
predomínio da coordenação e do polissíndeto; nomes concretos e artigos definidos.
Mas também o paradoxo: comparações e metáforas; discurso argumentativo, com
causais e adversativas
Ricardo Reis: Eu domino-me e abdico
Características temáticas: Paganismo (crença nos deuses e na civilização grega); fatalismo
(passividade, indiferença, ausência de compromisso com o Mundo; consciência da
precariedade da vida; medo da morte);
Epicurismo (busca da felicidade relativa, moderação nos prazeres, fuga à dor; “carpe diem” - vive o momento);
Estoicismo (aceitação das leis do destino - a passagem do tempo e a morte - , autodisciplina face às paixões e à dor; intelectualização das emoções); culto do Belo, como forma de superar a efemeridade dos bens e a miséria da vida.
Epicurismo (busca da felicidade relativa, moderação nos prazeres, fuga à dor; “carpe diem” - vive o momento);
Estoicismo (aceitação das leis do destino - a passagem do tempo e a morte - , autodisciplina face às paixões e à dor; intelectualização das emoções); culto do Belo, como forma de superar a efemeridade dos bens e a miséria da vida.
Características de linguagem e estilo: Classicismo (uso da Ode, de ideias e
linguagem de inspiração clássica; predomínio da subordinação; uso frequente do
gerúndio, do imperativo ou do conjuntivo; metáforas, comparações, ...; estilo
construído com muito rigor; discurso moralista).
Álvaro de Campos: Eu sinto tudo e canso-me
Características temáticas: Futurismo (2ª fase): exaltação da civilização industrial e da técnica;
da força, da violência, do excesso; ruptura com a lírica tradicional; atitude escandalosa.
Sensacionismo: vivência excessiva das sensações, “Sentir tudo de todas
as maneiras”, vontade doentia de fusão com o mundo
tecnológico.
Abulia (3ª fase): cansaço, tédio, pessimismo, solidão; angústia existencial e dor de pensar; fragmentação do “eu”; as saudades da infância. (o “reencontro” com o F. Pessoa Ortónimo)
Abulia (3ª fase): cansaço, tédio, pessimismo, solidão; angústia existencial e dor de pensar; fragmentação do “eu”; as saudades da infância. (o “reencontro” com o F. Pessoa Ortónimo)
Características de linguagem e estilo: verso livre, por vezes, muito longo;
onomatopeias, aliterações; grafismos expressivos; mistura de níveis de língua;
estrangeirismos e neologismos; enumerações excessivas, exclamações,
interjeições, apóstrofes, pontuação emotiva; metáforas ousadas, antíteses,
personificações, hipérboles, anáforas,...; desvios às regras sintácticas.
Características de Fernando Pessoa Ortónimo
Fernando Pessoa
conta e chora a insatisfação da alma humana. A sua precariedade, a sua
limitação, a dor de pensar, a fome de se ultrapassar, a tristeza, a dor da alma
humana que se sente incapaz de construir e que, comparando as possibilidades
miseráveis com a ambição desmedida, desiste, adormece “num mar de sargaço” e
dissipa a vida no tédio.
Os remédios para esse mal são o sonho, a evasão pela viagem,
o refúgio na infância, a crença num mundo ideal e oculto, situado no passado, a
aventura do Sebastianismo messiânico, o estoicismo de Ricardo Reis, etc.. Todos
estes remédios são tentativas frustradas porque o mal é a própria natureza
humana e o tempo a sua condição fatal. É uma poesia cheia de desespero e de
entusiasmos febris, de náusea, tédios e angústias iluminados por uma
inteligência lúcida – febre de absoluto e insatisfação do relativo.
A poesia está não na dor experimentada ou sentida mas no
fingimento dela, apesar do poeta partir da dor real “a dor que deveras sente”.
Não há arte sem imaginação, sem que o real seja imaginado de maneira a
exprimir-se artisticamente e ser concretizado em arte. Esta concretização opera
na memória a dor inicial fazendo parecer a dor imaginada mais autêntica do que
a dor real. Podemos chegar à conclusão de que há 4 dores: a real (inicial), a
que o poeta imagina (finge), a dor real do leitor e a dor lida, ou seja, intelectualizada,
que provém da interpretação do leitor.
Características temáticas
· Identidade perdida (“Quem me dirá
sou?”) e incapacidade de auto-definição (“Gato que
brincas na rua (...)/ Todo o nada que és é teu./ Eu vejo-me e estou sem mim./
Conhece-me e não sou eu.”)
· Consciência do absurdo da existência
· Recusa da realidade, enquanto aparência (“Há
entre mim e o real um véu/à própria concepção impenetrável”)
· Tensão sinceridade/fingimento,
consciência/inconsciência
· Oposição sentir/pensar, pensamento/vontade,
esperança/desilusão
· Anti-sentimentalismo: intelectualização da
emoção (“Eu simplesmente sinto/ Com a imaginação./ Não uso o coração.”
– Isto)
· Estados negativos: egoísmo, solidão,
cepticismo, tédio, angústia, cansaço,
náusea, desespero
· Inquietação metafísica, dor de viver
· Neoplatonismo
· Tentativa de superação da dor, do presente,
etc., através de:
- evocação da
infância, idade de ouro, onde a felicidade ficou perdida e onde não existia o
doloroso sentir: “Com que ânsia tão raiva/ Quero aquele outrora!” –
“Pobre velha música”
- refúgio no
sonho, na música e na noite
- ocultismo
(correspondência entre o visível e o invisível)
- criação dos
heterónimos (“Sê plural como o Universo!”)
· Intuição de um destino colectivo e épico para o
seu País (Mensagem)
· Renovador de mitos
· Parte de uma percepção da realidade exterior
para uma atitude reflexiva (constrói uma analogia entre as duas realidades
transmitidas: a visão do mundo exterior é fabricada em função do sentimento
interior)
· Reflexão sobre o problema do tempo como
vivência e como factor de fragmentação do “eu”
· A vida é sentida como uma cadeia de instantes
que uns aos outros se vão sucedendo, sem qualquer relação entre eles, provocando
no poeta o sentimento da fragmentação e da falta de identidade
· O presente é o único tempo por ele
experimentado (em cada momento se é diferente do que se foi)
· O passado não existe numa relação de
continuidade com o presente
· Tem uma visão negativa e pessimista da
existência; o futuro aumentará a sua angústia porque é o resultado de
sucessivos presentes carregados de negatividade
Excerto da Génese dos Heterónimos de Fernando Pessoa
“ Desde criança, tive a tendência
para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos
que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se
sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser
dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro
de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias
figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo
a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me
vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um
pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua
maneira de encantar.”
“ Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem eu suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura – cara, estatuto, traje e gesto – imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, ouço, sinto, vejo. Repito: ouço, sinto, vejo… E tenho saudades deles. “
“ Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia irregularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sai própria inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo individuo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.”
“ Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem eu suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura – cara, estatuto, traje e gesto – imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, ouço, sinto, vejo. Repito: ouço, sinto, vejo… E tenho saudades deles. “
“ Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia irregularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sai própria inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo individuo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.”
“Mais uns apontamentos nesta matéria… Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e do mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso) não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais dois cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de vago moreno mate; Campos, entre o branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem a Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.”
“Como escrevo em nome destes
três? Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular
que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que
subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para
escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em
muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado
ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio
e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo
porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma
simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa,
salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta,
e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o
português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez
de «eu mesmo», etc. Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero
exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou
de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea em verso.)”
in "Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa", ed. António Quadros. Porto, Lello & Irmão, 1986
Biografia e Bibliografia de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa (1888-1935) foi poeta português. Um dos mais importantes poetas da língua portuguesa. "Mensagem" foi um dos poucos livros de poesias publicado em vida. Fernando Pessoa ocupou diversas profissões, foi editor, astrólogo, publicitário, jornalista, empresário, crítico literário e crítico político.
Fernando Pessoa (1888-1935) nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 13 de Junho de 1888. Ficou órfão de pai aos 5 anos de idade. Seu padastro era o comandante João Miguel Rosa. Foi nomeado cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Acompanhou a família para a África e lá recebeu educação inglesa. Estudou em colégio de freiras e na Durban High School.
Em 1901 escreveu seus primeiros poemas em inglês. Em 1902 a família volta para Lisboa. Em 1903 Fernando volta sozinho para a África do Sul, onde submete-se a uma selecção para a Universidade do Cabo da Boa Esperança. Em 1905 de volta à Lisboa, matricula-se na Faculdade de Letras, onde cursou Filosofia. Em 1907 abandona o curso. Em 1912 estreou como crítico literário.
Fernando Pessoa foi vários poetas ao mesmo tempo. Tendo sido "plural" como se definiu, criou vários poetas, que conviviam nele. Cada um tem sua biografia e traços diferentes de personalidade. Os poetas não são pseudónimos e sim heterónimos, isto é indivíduos diferentes, cada qual com seu mundo próprio, representando o que angustiava ou encantava seu autor.
Criou entre outros heterónimos, Alberto Caeiro da Silva, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares. Caeiro é considerado naturalista e cético; Reis é um classicista, enquanto Campos tem um estilo associado ao do poeta norte-americano Walt Whitman.
Em 1915, liderou um grupo de intelectuais, entre eles Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros. Fundou a revista Orfeu, onde publicou poemas que escandalizaram a sociedade conservadora da época. Os poemas "Ode Triunfal" e "Opiário", escritos por Álvaro de Campos, causaram reacções violentas contra a revista. Fernando Pessoa foi chamado de louco.
Fernando Pessoa mostrou muito pouco de seu trabalho em vida. Em 1934 candidatou-se com a obra "Mensagem", um dos poucos livros publicados em vida, ao prémio de poesia do Secretariado Nacional de Informações de Lisboa. Ficou em segundo lugar.
Fernando António Nogueira Pessoa morreu em Lisboa, no dia 30 de Novembro de 1935.
Obras Publicadas em Vida
35 Sonnets, 1918
Antinous, 1918
English Poems, I, II e III, 1921
Mensagem, 1934
Antinous, 1918
English Poems, I, II e III, 1921
Mensagem, 1934
Obras Póstumas
Poesias de Fernando Pessoa, 1942
Poesias de Álvaro de Campos, 1944
A Nova Poesia Portuguesa, 1944
Poesias de Alberto Caeiro, 1946
Odes de Ricardo Reis, 1946
Poemas Dramáticos, 1952
Poesias Inéditas I e II, 1955 e 1956
Textos Filosóficos, 2 v, 1968
Novas Poesias Inéditas, 1973
Poemas Ingleses Publicados por Fernando Pessoa, 1974
Cartas de Amor de Fernando Pessoa, 1978
Sobre Portugal, 1979
Textos de Crítica e de Intervenção, 1980
Carta de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões, 1982
Cartas de Fernando Pessoa a Armando Cortes Rodrigues, 1985
Obra Poética de Fernando Pessoa, 1986
O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, 1986
Primeiro Fausto, 1986
Poesias de Álvaro de Campos, 1944
A Nova Poesia Portuguesa, 1944
Poesias de Alberto Caeiro, 1946
Odes de Ricardo Reis, 1946
Poemas Dramáticos, 1952
Poesias Inéditas I e II, 1955 e 1956
Textos Filosóficos, 2 v, 1968
Novas Poesias Inéditas, 1973
Poemas Ingleses Publicados por Fernando Pessoa, 1974
Cartas de Amor de Fernando Pessoa, 1978
Sobre Portugal, 1979
Textos de Crítica e de Intervenção, 1980
Carta de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões, 1982
Cartas de Fernando Pessoa a Armando Cortes Rodrigues, 1985
Obra Poética de Fernando Pessoa, 1986
O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, 1986
Primeiro Fausto, 1986
Subscrever:
Mensagens (Atom)